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Empresas sob pressão enfrentam dívida elevada e expectativa de queda mais lenta dos juros

Empresas sob pressão enfrentam dívida elevada e expectativa de queda mais lenta dos juros

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Por Luiz Guilherme Gerbelli e Renée Pereira

A combinação de juros elevados e incertezas sobre a condução das contas públicas pode deixar as empresas brasileiras ainda mais pressionadas no próximo governo Lula. Se o presidente não avançar em soluções para conter o elevado crescimento da dívida brasileira, o ritmo de queda dos juros pode ser comprometido, seja por uma queda mais lenta ou até pela paralisação do ciclo de corte da Selic. E isso afeta diretamente a saúde financeira das empresas endividadas. Segundo Ricardo Knoepfelmacher (mais conhecido como Ricardo K.), sócio da RK Partners, responsável pelas principais reestruturações no Brasil, a estimativa é que hoje mais de R$ 700 bilhões estejam em negociação com bancos e Fundos de Investimento em Direito Creditório (Fidc’s). Na avaliação dele, o estoque elevado de dívida talvez seja o maior problema atualmente.

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“Com juros nominais e reais nas alturas há bastante tempo, muitas empresas acumularam um volume de dívida cujo custo financeiro compromete a geração de caixa”, diz o reestruturador. Um estudo realizado pela consultoria dá a dimensão da dificuldade enfrentada pelas companhias nesse ambiente de juro alto: 26% das empresas de capital aberto não têm capacidade de pagar nem as despesas financeiras com a própria geração de caixa operacional.

A indústria de transformação e o comércio concentram quase metade das companhias que não têm capacidade de pagar essas despesas. Não por acaso, elas são também as mais alavancadas. Ou seja, a relação dívida líquida/Ebitda é três vezes superior à geração de caixa anual operacional. Quanto maior esse indicador, maior o comprometimento da companhia com as dívidas.

Para entender como a situação chegou a esse ponto, é preciso voltar alguns anos. Entre 2016 e 2020, a taxa de juros entrou em um ciclo de queda e chegou ao menor patamar da história, de 2% ao ano, em agosto de 2020. O crédito barato estimulou empresas a tomar empréstimos para investir e expandir seus negócios. O problema é que, no meio do caminho, elas foram surpreendidas pela covid-19 e, consequentemente, com o forte recuo da demanda.

Durante a pandemia, muitas companhias tiveram problemas de caixa, mas conseguiram adiar a crise com crédito, renegociações e medidas emergenciais. A situação, porém, ficou mais difícil com a reversão da política monetária. A Selic saiu de 2% para 15% em 2025, e isso teve um efeito perverso nas contas das empresas, altamente endividadas.

O resultado dessa equação (juro alto e endividamento elevado) tem produzido, desde então, uma onda de recuperações judiciais e extrajudiciais. São vários os casos de companhias que entraram na Justiça com pedidos de recuperação judicial e extrajudicial ao longo dos últimos meses, como os casos de Braskem e Unigel. No varejo, os exemplos de dificuldade também se avolumam. A lista envolve Casas Bahia, Grupo Pão de Açúcar e o grupo Toky, dono da Tok&Stok e da Mobly. Mais recentemente, outras marcas famosas recorreram à Justiça, como foi o caso de Habib’s, Ri Happy e JAC Motors.

A expectativa é que essa lista aumente ainda mais nos próximos meses, afirma Cláudio Dasmasceno, sócio das consultorias RGF-Bizdoc. Na opinião dele, os pedidos de recuperação judicial devem continuar em alta. Isso porque os efeitos do custo elevado do crédito sobre as empresas demoram de um a três trimestres para aparecer, enquanto o avanço da inadimplência tende a se transformar, mais adiante, em insolvência.

Fonte: Estadão

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