Campos Neto declarou que manutenção da Selic em 13,75% levou em conta inflação futura e não teve ‘componente político’. Detalhes do novo arcabouço fiscal podem alterar expectativas do mercado e impactar decisões futuras, disse. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, voltou a defender em entrevista nesta quinta-feira (30) que a decisão de manter os juros básicos da economia em 13,75% – o maior patamar em seis anos – foi “super técnica” e levou em conta as expectativas do mercado para os próximos anos.
A decisão foi tomada na última semana pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do BC e surpreendeu negativamente o governo Luiz Inácio Lula da Silva.
Isso porque, no comunicado, o Copom não sinalizou uma expectativa de queda dos juros nos próximos meses – pelo contrário: indicou que podia subir ainda mais a taxa.
“A decisão do Copom é super, totalmente técnica. […] A nossa decisão é super técnica. Tem uma equipe muito grande, setores diferentes olhando variáveis diferentes. Olhamos basicamente a inflação corrente, o hiato do produto e a expectativa à frente”, declarou Campos Neto.
O hiato do produto, citado por Campos Neto, é a diferença entre o PIB real e o potencial da economia do país. Ou seja, se a economia está operando acima ou abaixo da capacidade ideal.
Questionado também sobre o novo arcabouço fiscal elaborado pelo governo para substituir o teto de gastos, o presidente do Banco Central disse que ainda não tinha visto o detalhamento da proposta e que o BC ainda avaliaria o possível impacto do texto nas expectativas do mercado (veja mais abaixo).
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A taxa de juros é o principal instrumento do Banco Central para cumprir um dos principais objetivos do órgão: controlar a inflação no país.
Quando a Selic (e as outras taxas de juros) aumentam, fica mais vantajoso investir em aplicações – e mais caro pegar empréstimos e parcelar compras, por exemplo. Isso “esfria” o consumo e reduz o ritmo da economia, o que ajuda a controlar a inflação.
O governo federal pressiona o Banco Central (que é independente desde 2021) a reduzir os juros para impulsionar o crescimento da economia.
O BC, no entanto, aponta risco de descontrole da inflação com base em indicadores e expectativas no Brasil e no exterior – o que dificulta a queda dos juros.
“A ata [do Copom] sempre tem dimensão técnica pra tentar explicar o que foi feito, porque tem o período que a gente consegue observar reações dos agentes sobre o que foi feito. […] A gente entendeu que algumas coisas precisavam de uma explicação mais profunda.. […] Em nosso processo não há nenhum componente político, é técnico”, defendeu Campos Neto na entrevista.
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Arcabouço fiscal
Campos Neto conversou com jornalistas no mesmo momento em que, a poucos quilômetros de distância, os ministros Fernando Haddad (Fazenda) e Simone Tebet (Planejamento) detalhavam a nova proposta de arcabouço fiscal – que ainda passará pelo Congresso.
Se aprovadas, as regras vão substituir o teto de gastos e definir o novo limite para as despesas públicas – um componente que, fora do controle, também aquece a economia, aumenta a inflação e compromete a capacidade do governo de honrar seus compromissos.
Questionado sobre o tema, Campos Neto disse que o BC ainda não tinha visto os detalhes da proposta e teria que se debruçar sobre o tema posteriormente.
“Não quero fazer comentários sem saber exatamente como é o arcabouço. A gente reconhece o esforço que está sendo feito pelo Ministério da Fazenda, um projeto duro, com um governo com bastantes divisões. Isso mostra preocupação com a trajetória da dívida”, disse.
Campos Neto também ressaltou que, na prática, a discussão do arcabouço não afeta diretamente a política monetária no país – embora seja um componente das expectativas do mercado.
“O importante é como a gente incorpora isso nas nossa projeções. Não fazemos [política] fiscal, não é um trabalho do BC. Incorporamos o fiscal nas nossas expectativas, na função e reação que o BC tem. É um regime em câmbio flutuante, com sistema de meta e que tem âncora fiscal”, explicou.
“Lembrando que isso [a política fiscal] entra como ‘input’ nas nossas decisões. A gente precisa avaliar como vai ser a nova trajetória. Neste momento, não tenho nada a declarar. A gente precisa analisar”, continuou.
O diretor de Política Econômica do BC, Diogo Guillen, ressaltou na entrevista que não há uma “relação mecânica” entre o arcabouço fiscal e a queda da inflação. Ou seja: o impacto não é direto, e sim, resultante de uma eventual mudança nas expectativas.
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Relação com Haddad
Durante a entrevista desta quinta-feira, Campos Neto foi questionado sobre como está a relação com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, diante das frequentes críticas do governo à taxa de juros.
O presidente do BC, então, respondeu que o relacionamento com o Ministério da Fazenda é “bom” e que Haddad, na avaliação de Campos Neto, é “bem intencionado” e terá uma “luta dura” no cargo.
“O Banco Central é um órgão técnico e não deveria se envolver em temas políticos. O que a gente pode fazer é comunicar, da melhor forma possível, como é feito o nosso trabalho”, respondeu.
“Temos um bom relacionamento com a Fazenda, tenho bastante convicção de que o ministro Fernando Haddad está bem intencionado, tem uma luta dura pela frente, temos que reconhecer isso. Temos trabalhado junto. Do nosso lado, estamos fazendo um trabalho técnico”, completou.
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