Foto: Ricardo Stuckert/PR
O chanceler brasileiro Mauro Vieira levou a Cali, na Colômbia, uma carta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao presidente empossado, Abelardo de La Espriella. A cena repetiu o padrão adotado por Lula na semana anterior, quando Vieira foi a Lima, Peru, com uma missiva em mãos enviada pelo petista a Keiko Fujimori.
Em jogo, está a tentativa de Lula de abrir canais de diálogo com novas lideranças da direta regional, com as quais possui divergências ideológicas, com um recado de pragmatismo do Palácio do Planalto. E também para se proteger de interferências externas no País e evitar o isolamento político.
Em Lima, o chanceler entregou a Keiko a carta de Lula e, numa conversa de bastidores, ouviu dela que a relação com o Brasil será prioritária para seu governo. Ela indicou como chanceler um diplomata de carreira, Hugo de Zela, que atuou no cargo como interino e é amigo do ministro Vieira de longa data.
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Mas o governo vê com incerteza a postura de Espriella. Dos novos governantes, ele é o que mais desperta temores no governo. Já anunciou o fechamento de 14 embaixadas e 15 consulados no exterior e o rompimento de relações com Cuba e Nicarágua.
No discurso, prometeu afastar a Colômbia dos “regimes totalitários bolivarianos” e mostrou alinhamento com a política dos EUA, ao falar do combate ao “narcoterrorismo”. A cerimônia reuniu as lideranças de direta do continente e prestou elogios à proposta do Escudo das Américas.
Espriella indicou como chanceler o professor universitário Omar Bula Escobar, que trabalhou nas Nações Unidas e se converteu em crítico da organização. O chanceler se diz antiglobalista e, assim como o chefe, o futuro ministro colombiano é fã de Donald Trump.
Bula costuma espalhar teses conspiratórias e foi vinculado em reportagens do The New York Times e do Politico à difusão de desinformação sobre fraude eleitoral, em 2020, entre a comunidade latina nos EUA.
No X (antigo Twitter), Bula já associou Lula ao crime e disse que o petista é um dos problemas dos EUA na América do Sul. Ele também chamou o petista de “mestre da corrupção” e deixou claro sua simpatia pelo bolsonarismo.
“Abelardista deve apoiar (Flávio) Bolsonaro, e bolsonarista deve apoiar Abelardo… Estamos junto nisso”, escreveu em maio.
Em Cali, Omar Bula acompanhou na sexta-feira, dia 7, o vice-presidente José Manuel Restrepo, responsável por receber a mensagem do governo Lula. Eles se reuniram com Mauro Vieira e o embaixador Paulo Estivallet.
Segundo o Itamaraty, o vice de Espriella “transmitiu o reconhecimento do governo do novo presidente Abelardo de La Espriella à atitude do presidente Lula de reconhecer prontamente os resultados eleitorais” e “reiterou a prioridade conferida pelo novo governo colombiano à parceria bilateral”, com foco em economia, comércio e Amazônia.
Vieira mencinou a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) como órgão para articulação, inclusive, no combate ao crime organizado, pauta do agrado de Espriella. Segundo o MRE, o brasileiro convidou e seu homólogo aceitou fazer uma visita a Brasília.
Lula fez campanha a favor do senador Iván Cepeda, candidato de esquerda derrotado por Espriella, a quem recebeu no Planalto. Ele era apoiado pelo presidente em fim de mandato Gustavo Petro, de quem o petista se despediu na quarta-feira, dia 5, com um telefonema elogioso.
Lula, porém, não endossou questionamentos e acusações de fraude nas eleições feitas por Petro nas últimas semanas.
Recentemente, o governo acenou a Espriella: “Brasil e Colômbia estão unidos por uma ampla agenda de interesses comuns e terão somente a ganhar se continuarem trabalhando juntos”, disse o Planalto em nota.
A Colômbia é o terceiro país mais populoso da América Latina, com cerca de 54 milhões de pessoas, e tem a quarta principal economia, com PIB de cerca de US$ 450 bilhões.
Fontes do governo acreditam que a disputa presidencial colombiana foi uma espécie de laboratório do que poderia ocorrer no Brasil em seguida pela posição ideológica dos candidatos e a influência da Casa Branca no processo.
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Trump declarou apoio ao presidente eleito e celebrou posteriormente seu triunfo sobre o candidato da situação. Ele havia mantido embates com o presidente Gustavo Petro, aliado de Lula, e depois eles acertaram uma aproximação com visita à Casa Branca.
O governo petista quer evitar novas tentativas de ingerência nas eleições presidenciais, enquanto tenta reagir à pressão diplomática e política exercida pelos governos de Donald Trump (Estados Unidos) e Javier Milei (Argentina). Ou mesmo adesões explícitas à campanha pró-Flávio Bolsonaro (PL), seu principal adversário na disputa pelo Palácio do Planalto.
Embora não tenha sido motivada por Milei, a reação de Lula coincidiu com a onda de insultos do argentino e com o envolvimento pessoal dele em solo brasileiro pró-Flávio Bolsonaro. Existe no governo brasileiro uma percepção de que Milei tenta se projetar como líder da direita latino-americana – e, por isso, busca o embate com Lula para se projetar e antagonizar com o petista.
Integrantes do governo Lula também veem no comportamento do libertário argentino coordenação com Washington e uma forma de agradar a Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio, mesmo que Milei atue de forma espontânea.
Fonte Estadão


